

Quando as pessoas conversam sobre redes – viver em rede, viver da rede – é necessário prestar atenção às diferenças de perspectivas.
Sem fazer qualquer juízo de valor, vejamos alguns exemplos de perspectivas diferentes:
1 – A perspectiva de quem não tem emprego é completamente diferente da perspectiva de quem tem a segurança de um salário (mesmo pequeno) no final do mês, férias, décimo-terceiro e outros benefícios (como plano de saúde e, às vezes, aposentadoria especial).
2 – A perspectiva de quem não tem renda (ações, capital investido, propriedades produtivas ou potencialmente produtivas, poupança e outros ativos que sirvam como garantias reais para tomar crédito) é completamente diferente da perspectiva de quem tem algum tipo de renda (e sabe que pode se dedicar a uma enterprise que não vão lhe faltar condições de sobrevivência no curto ou no médio prazos).
3 – A perspectiva de quem tem que viver somente dos seus próprios empreendimentos (e é obrigado a vender continuamente produtos ou serviços para pagar suas contas diárias, semanais e mensais) é completamente diferente da perspectiva de quem é sustentado por alguém (ou, pelo menos, conta com a ajuda de alguém – cônjuge, pai, mãe ou outros parentes ou benfeitores – para as despesas do dia-a-dia ou para dar aquele apoio num momento de necessidade).
4 – A perspectiva de quem observa, investiga, gera explicações, escreve e publica por conta própria e/ou com seus amigos é completamente diferente da perspectiva de quem está abrigado em uma instituição que financia, apoia, fornece condições materiais, remunera o ócio criativo e ainda valida de modo diferencial a produção intelectual de seus membros.
Em suma:
5 – A perspectiva de quem não pertence a um grupo (família, entidade ou instituição) e depende da volatilidade dos laços fracos para realizar qualquer iniciativa conjunta é completamente diferente da perspectiva de quem pertence a uma organização proprietária e fechada e pode contar com o apoio de laços fortes de identidade, que selecionam os “de dentro” de modo diferenciado em relação aos “de fora”.
Os discursos, as preferências intelectuais, os incômodos com a sua situação atual, não mudam a perspectiva do sujeito. Não é determinante o que ele pensa, deseja ou como gostaria de viver e sim como ele vive.