Empreender em rede

Ainda sobre os desafios de empreender em rede
As empresas diante da crise

Se queremos fazer em rede as coisas que fazemos para ganhar a vida, isso implica, em primeiro lugar, resistir à tentação de organizar (ou pertencer a) um grupo. Em 2011 escrevi um texto sobre isso: Resista à tentação de pertencer a um grupo. Está aqui no Facebook (*).

Dizer isto, porém, é mais fácil do que fazer (no caso, não-fazer). Porque se começamos a nos comportar como um grupo (mesmo chamando-o de rede), então é sinal de que não conseguimos resistir à tentação de pertencer a um grupo.

Isso tem implicações nos negócios que estamos fazendo. Não é o grupo que define os empreendimentos que fazemos, mas o contrário. Cada empreendimento gera uma clusterização diferente e deve ser regido por normas diferentes. Não há uma organização pairando acima de todos os empreendimentos em que entramos. Cada coisa que fazemos é um mundo social diferente que se configura, gera uma pessoalidade fractal diferente e, portanto, deve ser regido por um acordo de convivência diferente. O que nos dá identidade não é uma marca ou um nome proprietário pré-existente e sim, de partida, uma sintonia fina e, depois, uma sinergia própria que é característica de uma trajetória particular de adaptações (se tal sinergia acontecer, pois não se pode saber se ocorrerá antes da interação).

Ao não fazermos um grupo estamos fazendo algo muito mais importante – e arriscado – do que um grupo. Estamos mantendo a abertura para que a organização emergente se forme em outro mundo (no espaço-tempo dos fluxos, vamos chamar assim por ora), estamos impedindo que ela se coagule no mundo do produzir. Mas isso só é possível se a sintonia de partida já estiver dada (sem necessidade de explicação: se tiver que explicar por quê, convencer, ganhar pessoas, já dançou! A pessoa que vem é a pessoa certa, o que também pode ser entendido pela metáfora dos sensates, da série recente dos Wachowskis: Sense8). Estão entendendo realmente por que o primeiro passo – como dizia Krishnamurti – é o único passo?

Para tanto, não precisamos concordar sobre qualquer conteúdo. Empreendimentos em rede não são uma religião, uma sociedade ou fraternidade, um grupo filosófico, político ou seja lá o quê. Um cluster de inteligência cooperativa é uma ecologia de diferenças coligadas. Um ecossistema que só pode existir com base no fato de que não aglutina homogeneidades. O relevante aqui é o padrão que conecta.

A primeira implicação prática desse modo de fazer em rede é que não podemos ter garantia de nada. Quem quer garantia, que arrume um emprego. A garantia é sempre e somente a confiança. A confiança enseja a aposta. Tudo é aposta. Ao dar um passo colocamos em ação forças que não dependem mais apenas de nós.

Em termos práticos isso significa que vamos sempre negociar – os que estão envolvidos em uma atividade – os termos em que se dará tal atividade. Quem vai fazer o quê? Quanto cada um vai receber (ou não vai receber) pelo que fez?

Mas as situações são sempre diferentes. Um mesmo fazer pode ter valores diferentes: por exemplo, se for feito por uma pessoa que contribui para a manutenção das estruturas físicas ou virtuais que são utilizadas pelo empreendimento é diferente de se for feito por uma pessoa que não contribui.

Empreendimentos em rede não podem ser baseados em divisão fixa da receita líquida pelos que contribuem para o empreendimento. Cada caso é um caso, ainda que se possa ter uma base geral para um mesmo tipo de fazer ou para um mesmo conjunto de fazeres.

A divisão equitativa dos resultados é uma fórmula que não se aplica à maioria dos casos. Ela tende a inviabilizar a sobrevivência dos empreendedores: mais gente empreendendo significa menos receita para quem empreende.

Em suma, empreender em rede não é fazer uma nova empresa e sim criar um ambiente favorável ao surgimento de muitas enterprises sinérgicas e sintonizadas com um determinado conjunto de temas que levou pessoas a desejarem fazer certas coisas juntas.

(*) https://www.facebook.com/notes/augusto-de-franco/resista-à-tentação-de-pertencer-a-um-grupo/618856691479866)