

Estava conversando com alguns amigos sobre nossos empreendimentos conjuntos em rede. Uma boa conversa. Como não tenho nenhuma teoria geral sobre isso, da qual se pudesse inferir uma fórmula aplicável à vida alheia, fui obrigado a partir da minha própria vida. O que valeu e vale para mim, por certo, não valerá para outras pessoas. Mas a partir das minhas próprias experiências posso chegar, quem sabe, a pensar em situações homólogas e em suas implicações e consequências, pelo menos para aquelas em que estou envolvido. Afinal, os humanos que vivemos há seis milênios numa civilização patriarcal, não somos assim tão diferentes.
Saí de casa aos 22 anos. A partir daí já tive que arcar com meus gastos. Na verdade comecei a trabalhar remuneradamente a partir dos 20 anos, mas até àquela época nunca pensei muito em dinheiro. E, para falar a verdade, nem depois. Fazia muitas coisas e delas tirava meu sustento – inicialmente fui professor, depois dirigi organizações sem fins lucrativos, coordenei programas de parceria entre governo e sociedade civil e, pasmem!, fui até dirigente de partido -, mas sempre dediquei uma ínfima parte do meu tempo ao trabalho remunerado (em todo tempo restante eu vivia organizando coisas que não davam um tostão, morando sete anos numa favela para fazer “trabalho de base”, lendo e escrevendo e publicando muitos livros). Só fui pensar em empreender alguma coisa lucrativa depois dos 50 anos. Mesmo assim, nunca almejando enriquecer, mas apenas sobreviver.
Devo dizer que tive imenso sucesso em termos pessoais (consegui investigar e descobrir algumas coisas novas – pelo menos para mim – e experimentar muitas outras que desejava). Mas para ter tanto sucesso em meus empreendimentos pessoais nunca fui bem-sucedido em meus poucos negócios. Nisso dei uma sorte danada. Já pensaram se tivesse me transformado num Beto Sicupira ou num João Paulo Lemann? Não poderia ter feito o que fiz e continuar fazendo o que faço, nem mesmo escrever este pequeno texto.
As pessoas que associam sucesso nos negócios à virtude (o que raramente é verdadeiro, mas faz parte da mentalidade de escravos e… de senhores de escravos que são escravos dos escravos), têm dificuldade de entender meu ponto de vista. Elas perguntam: mas você não gostaria de ganhar bem, ter um vida tranquila, segura, confortável e um futuro garantido, não ter dívidas, viver de renda, poder comprar o que quiser, realizar seus sonhos, viajar pelo mundo, enfim, ter tempo livre para fazer o que deseja?
Como decidi – a partir dos 45 anos – nunca mais trabalhar para alguém ou me empregar em qualquer organização hierárquica, há 20 anos venho atuando como palestrante, consultor e empreendendo para sobreviver. Mas não tenho nenhuma ilusão de que meus empreendimentos me darão uma vida extremamente confortável e sem preocupações financeiras, com sobra de tempo para fazer outras coisas folgadamente. Mesmo porque, que coisas seriam estas? O que faria com mais tempo livre (se todo meu tempo já é livre, muito mais livre do que o do Gerdau ou o do André Esteves)? E o que faria com mais recursos? Compraria um castelo? Um barco? Um carro de luxo? Viajaria? Tiraria férias de um ano? Fumaria charutos e jogaria golfe? Prá quê?
Sim, para quê tudo isso se eu não pudesse ser a pessoa que me tornei? Gosto muito dessa pessoa desobediente que sou para trocá-la por qualquer outra. Para ser esta pessoa que sou, emprego 90% do meu tempo em atividades que não dão retorno financeiro: pesquiso sobre redes e democracia, experimento configurar novos ambientes favoráveis às redes distribuídas e à democracia como modo-de-vida, escrevo textos que não vendem, faço netweaving gratuitamente, converso sem parar – inclusive no Facebook – com qualquer um que queira realmente conversar comigo e tento desconstituir hierarquia e autocracia, obcecadamente, todos os dias e em todos os lugares em que elas se reproduzem (nas escolas, nas corporações, nos partidos, nas empresas piramidais e inclusive nos governos). Convenhamos, tudo isso não é muito compatível com querer ficar rico.
Na juventude, estranhava muito esse pessoal que quer ficar rico. Na minha época de universidade havia uns caras assim, mas o espírito do tempo era outro e eles eram mal-vistos nos meios que eu frequentava. Depois não tive mais problemas com isso. Quem quer ficar rico, que tente ficar. O problema é o custo: como só alguns ficam, o caminho para a riqueza almejada implica autocondicionamento para competição, luta incessante e, não raro, impiedade. É difícil ficar muito rico sem expropriar algum sobrevalor produzido por trabalho alheio, sem infligir deliberadamente sofrimentos a outros seres humanos e – agora vem o fundamental – sem erigir (ou trabalhar para manter e reproduzir) organizações hierárquicas (basta ver como percorreram tal caminho os empresários de sucesso que citei neste texto e… milhares de outros). No Brasil, em particular, é muito difícil acumular uma grande fortuna sem ajuda do Estado ou sem receber algum tipo de favorecimento político (o que, na prática, é também um roubo de dinheiro do contribuinte). Quem não acredita nisso deve estudar a história de nossas grandes fortunas.
De qualquer modo, o custo mais importante desse esforço para ficar rico é um custo de alma. Você tem que vender uma parte da sua alma (obedecendo a alguém ou mandando em alguém: é a mesma coisa). Para ter mais liberdade no futuro – liberdade fornecida supostamente pelo dinheiro – você tem que restringir sua liberdade no presente. Não pode ficar fazendo coisas de graça a torto e a direito. Não pode ficar brincando, se dedicando ao que não dá resultado, pelo simples prazer de fazer e se comprazer na convivência com seus amigos (ou seja, não pode mais ser criança). Não pode ficar criando coisas que nunca vão ter valor econômico. Não pode gastar tempo desenvolvendo projetos ou construindo protótipos de produtos que não vendem. Para ter sucesso, você tem que ter claro o seu objetivo e se concentrar nele. Os outros são importantes na medida em que podem ajudá-lo a alcançar seu objetivo; se não podem, que se danem: cada qual cuide de si. Quando você começa a pensar e a se comportar assim, uma parte da sua alma já morreu. Porque sua alma é o outro em você.